Análisis

Mercados de previsão irrompem no iGaming e colocam um novo desafio regulatório na América Latina

Quarta-feira 08 de Abril 2026 / 12:00

⏱ 5 min de lectura

(Cidade do México).- Em um artigo especial de opinião publicado em suas redes sociais, Rosa Ochoa, Diretora para a América Latina da SCCG Management, analisa o avanço dos mercados de previsão e seu impacto crescente na indústria global de jogos. Sob sua perspectiva, essa nova dinâmica não apenas redefine a forma como os usuários interagem com as apostas, mas também levanta questões regulatórias-chave para a região.

Mercados de previsão irrompem no iGaming e colocam um novo desafio regulatório na América Latina

A indústria do jogo começa a observar uma transformação impulsionada pelos mercados de previsão, um modelo que introduz dinâmicas mais próximas do trading do que das apostas tradicionais. Em sua coluna, Rosa Ochoa adverte que esse fenômeno não deve ser entendido como uma simples extensão do iGaming, mas como uma evolução que incorpora novas formas de participação e de atribuição de valor por parte do usuário.

O desenvolvimento de plataformas especializadas e a entrada de atores financeiros evidenciam uma crescente convergência entre entretenimento e finanças. No entanto, na América Latina, o debate regulatório ainda permanece focado em estruturas tradicionais, deixando essa nova categoria em uma zona cinzenta normativa.

Ochoa também destaca que a mudança mais relevante pode estar no comportamento do usuário, com uma transição para modelos mais analíticos e participativos. Nesse cenário, tanto reguladores quanto operadores deverão definir seu posicionamento diante de uma tendência que já apresenta sinais de consolidação em nível global.

A seguir, a coluna completa da autora:

Apostas tradicionais versus mercados de previsão
Por Rosa Ochoa

Nos últimos meses, começou a ganhar forma um conceito sobre o qual ainda se fala pouco na América Latina, mas que já está gerando mudanças reais na indústria global: a economia da previsão. Não se trata de mais uma tendência nem de um termo da moda. Trata-se de uma forma diferente de entender como as pessoas interagem com o futuro e, sobretudo, como atribuem valor a ele.

Para entender por que isso é relevante, convém lembrar o que ocorreu em 2018 com Murphy v. NCAA. Essa decisão eliminou a proibição federal das apostas esportivas nos Estados Unidos e permitiu que cada estado definisse seu próprio marco regulatório. A partir daí, o mercado cresceu de forma acelerada e estabeleceu as bases do iGaming moderno como o conhecemos hoje. No entanto, o que estamos vendo agora não é uma extensão desse modelo, mas uma evolução para algo mais complexo.

A economia da previsão baseia-se em uma ideia simples, porém poderosa: qualquer evento futuro pode se tornar algo sobre o qual se pode operar.

Não se trata apenas de apostar em um resultado, mas de adotar uma posição com base em informação, contexto e percepção. Essa posição pode mudar de valor antes que o evento ocorra, introduzindo uma lógica muito mais próxima do trading do que do jogo tradicional. Nesse sentido, a previsão deixa de ser uma opinião e passa a se comportar como um ativo.

Essa mudança não é isolada. Plataformas como Polymarket demonstraram que existe uma demanda real por esse tipo de produto e operam em grande escala sobre infraestruturas descentralizadas. Ao mesmo tempo, entidades reguladas como Kalshi mostram que esses mercados também podem existir dentro de estruturas financeiras formais. Até mesmo plataformas de grande alcance como Robinhood começaram a integrar contratos baseados em eventos em sua oferta, aproximando esse tipo de instrumento de usuários que não necessariamente vêm do universo do gaming.

Em conjunto, esses movimentos apontam para uma clara convergência entre entretenimento e finanças. E este é justamente o ponto que na América Latina ainda não foi totalmente assimilado. O debate na região segue centrado em licenças, impostos e operação de cassinos online, enquanto o comportamento do usuário começa a migrar para modelos em que a participação é mais ativa e a interpretação da informação desempenha um papel central.

Alguns países, como Colômbia e Argentina, já começaram a reagir a esse fenômeno, em parte porque esses modelos não se encaixam nas categorias regulatórias existentes. Não se trata de apostas no sentido tradicional, mas tampouco são instrumentos financeiros em sentido estrito. Essa ambiguidade é o que está gerando tensões e evidencia que o marco atual não é suficiente para descrever o que está acontecendo.

Além da regulação, o aspecto mais interessante é a mudança de comportamento. Durante anos, o crescimento do iGaming baseou-se na imediatidade e na simplicidade: mercados claros, resultados rápidos e uma lógica de entretenimento direto. O que começa a emergir agora é uma camada distinta, na qual certos usuários buscam compreender melhor o contexto, antecipar cenários e tomar decisões com base em informação. Não se trata de uma substituição do modelo anterior, mas de uma evolução que convive com ele.

Para os próximos meses, há vários sinais que merecem atenção. O primeiro é como os reguladores começam a se posicionar diante dessa categoria híbrida e se a abordam sob a ótica do jogo ou do sistema financeiro. O segundo é a reação dos operadores tradicionais, especialmente se decidirão incorporar esse tipo de dinâmica em suas plataformas ou se as enxergarão apenas como concorrência externa. O terceiro é a adoção dessa categoria pelos usuários, sobretudo os mais jovens, que já estão familiarizados com lógicas de trading e ativos digitais.

A economia da previsão não substitui o iGaming, mas adiciona uma camada que obriga a repensá-lo. É um indicativo de para onde parte do mercado está se movendo e, como já aconteceu anteriormente, é provável que o usuário avance mais rápido do que a regulação e do que a própria indústria.

O que está em jogo não é apenas um novo produto, mas a forma como a participação nesses mercados será definida no futuro próximo.
Deveria ser regulado como jogo ou como instrumento financeiro no México e na América Latina?

*Rosa Ochoa é Diretora para a América Latina na SCCG Management, empresa global especializada em consultoria estratégica na indústria de jogos. Possui ampla experiência em desenvolvimento de negócios, regulação e expansão do setor em mercados emergentes. Seu perfil profissional está disponível no LinkedIn.

Categoría:Análisis

Tags: Sin tags

País: México

Región: Norte América

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